Recuerdos
Aqui é só uma passagem, e a beleza física dura pouco. Quem entende isso aproveita melhor a viagem.
Eram os anos oitenta e eu estava decidida a casar. Não queria ser solteirona feito as minhas tias. Embora tivesse a maior admiração e respeito pela vida delas. Mulheres lindas, vaidosas, inteligentes e livres, mas moravam com os pais e eu queria ter minha casa, meus pertences, meu cantinho, meu mundo particular.
Então comecei a pedir a Santo Antonio, embora não fosse devota e também não fiz nenhuma promessa. Apenas avisei para ele que queria casar, e pedi que ele me arrumasse um noivo de boa família, bonito, saudável, inteligente, culto, gostoso e independente financeiramente e da família e dos amigos. Que soubesse o que queria da vida.
E assim numa noite no Bar Ecológico em Olinda/PE me encontro com ele. Já o conhecia do tempo que estudávamos na UFPE, ele fazia Engenharia Elétrica, tinha sido um dos primeiros lugares no vestibular. Era bonito, inteligente e de “boa família”. Seu pai tinha sido exilado político e pertencia ao PCB. O pai não ele. O pai, um político maravilhoso que fez reforma agrária com as terras que herdou da família, um político forte e destemido. O filho portanto, tinha pedigree político e isso era muito importante para mim.
Durante nosso tempo de faculdade nós fomos aliados políticos e lutamos pelas mesmas causas, entre elas a Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita, que questiono até hoje mas era o que tinha pra vez. Com ela trouxemos nossos guerreiros de volta, entre eles meu futuro sogro.
E assim nesse momento de Redemocratização nos aproximamos, mas sem esperança de love. Eu estava um pouco magoada por ter sido rejeitada pela família de dois pretendentes que argumentavam que seus filhos homens mereciam “coisa” melhor do que eu. Mas meu coração insistia só queria “coisa” boa. E assim nos reencontramos e vivemos um romance. Só era eu, ele e nosso amor, que floria como um jardim encantado. Até que ficou sério e ele me pediu em casamento. Aceitei na hora. E fomos avisar as famílias que iríamos casar.
Minha família adorou. Já estava passando da hora. Afinal eu já tinha um Curso superior, e tinha trabalhos aleatórios em várias Instituições de pesquisa, fazia pesquisa de campo que pagava muito bem. Eu adorava viajar conhecer novas cidades, municípios, estados. Vivia fazendo a mala. Minha mãe implorava para eu dar notícias, o que eu fazia de vez em quando. E foi entre uma viagem e outra que nos reencontramos.
Já a família dele ficou preocupada com a “precipitação” do casamento. Não entendiam a pressa. Perguntaram se eu estava grávida e nós garantimos que não. O pai dele veio de São Paulo, onde morava com sua atual mulher, local onde fixou residência, após nossa luta no Brasil e fora dele pela Anistia.
Ele veio para sua, nossa cidade natal para me conhecer. Queria saber quem é essa aventureira que quer usar o nome da nossa família. Disse a ele que tinha nome e sobrenome que não se preocupasse porque depois de casada continuaria a usar meu nome de solteira. E apesar deles insistirem para a separação total de bens, eu queria a comunhão parcial de bens, pois tudo que construíssemos seria de nós dois. Satisfeitas as partes casamos e fomos feliz por 17 anos formando uma linda família, dois filho@s e quatro net@os. Depois de separada meu sogro só me chamava de nora, e dizia existe ex-marido mas não existe ex-sogro. Hoje sou uma mulher divorciada e dona de meu próprio nariz. Continua... Telma Virginia Pereira da Cunha


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